D.Afonso Henriques, o Conquistador
A Luta Continua
Os mouros de Santarém atacavam frequentemente a zona de Coimbra.
Destruíam as colheitas, faziam pilhagens e levavam cativos.
A única maneira de pôr fim a estas investidas era conquistar a margem direita do Tejo.
Para começar, D.Afonso Henriques escolheu Santarém.
Elaborou o plano de assalto ao castelo, fez a selecção dos homens que haviam de o acompanhar, e quando chegou a altura procedeu de acordo com os costumes da época. Ou seja, enviou um mensageiro anunciar aos habitantes da cidade que dentro de 3 dias a paz seria quebrada.
A conquista foi rápida e fulminante. Chegou até aos nossos dias um relato pormenorizado de como tudo aconteceu.
Deve ter sido escrito por um cavaleiro que nela participou.
A Conquista de Santarém (relato anónimo da época)
“Santarém parecia quase impossível de conquistar porque era defendida por muitos soldados e estava apetrechada com muitas máquinas de guerra. Rodeada de muralhas e torreões, situava-se no alto de um monte que se diria inexpugnável.
Do lado norte o monte erguia-se como se quisesse continuar a cidade até às nuvens. Do lado sul a terra abria-se num abismo tão sinuoso que lhe chamavam alhanse, o que quer dizer cobra.
O exército que se atrevesse a enveredar por esses caminhos estreitos e cheios de curvas seria obrigado a avançar muito lentamente e em fila indiana, o que significava derrota certa.
Do lado oriental, que precipício imenso sobre o rio! Os mouros ate lhe chamavam alhada, o que quer dizer medo, pois dali eram atirados os condenados à morte para que caíssem na margem do Tejo com os ossos e todo o corpo despedaçados. Escalar o precipício seria uma loucura.
As planícies junto ao rio, cheias de pântanos e ilhotas, só eram acessíveis de barco e em certas épocas do ano.
Qualquer tentativa de pilhagem se revelava infrutífera, pois quando o ataque vinha da margem direita os mouros fugiam com os rebanhos para a esquerda, e vice-versa.
Zona difícil de conquistar, mas tão linda, tão fértil, tão rica, tão apetitosa!
D. Afonso Henriques pensou longamente na melhor maneira de atacar e decidiu incumbir Mem Ramires de ir até lá em segredo. Devia escolher os melhores caminhos de aproximação e um sítio do muro por onde se pudesse entrar de novo com alguma segurança.
Mem Ramires cumpriu a missão. Já com um plano traçado, o rei saiu de Coimbra a uma segunda-feira dia 9 de Março de 1147. Lavava consigo um pequeno exército, a quem não revelou em pormenor o que tinha na ideia. Uns a pé outros a cavalo, demoraram 4 dias a chegar ao destino. Na madrugada de sexta-feira acamparam em Pernes.
O rei chamou então todos os seus homens e fez um longo discurso
Primeiro lembrou os malefícios que sofriam por causa dos ataques dos mouros de Santarém.
“Sabeis camaradas e sabei-lo bem que muitas calamidades tendes sofrido vindas desta cidade em cujos confins nos encontramos. Sabeis quanta desgraça acarretou ao meu reino. Há muito conheceis o arreganho dos seus dentes…”
Depois disse-lhes que os escolhera a eles porque eram os melhores.
“Só vos escolhi a vós que sempre me acompanhastes como experimentados guerreiros em todas as circunstâncias difíceis.”
Em seguida confiou-lhes o plano. Iam fazer um assalto à cidade durante a noite. Um primeiro grupo subiria à muralha, para o que era necessário construírem escadas. Queria 10 escadas e que fossem encostadas todas ao mesmo tempo. Cada uma seria para 12 homens, portanto contava pôr lá em cima de surpresa 120 soldados. Logo que hasteassem a bandeira o resto do exército investia a rebentar a porta. O ataque a meio da noite tornaria tudo mais fácil porque a maior parte das pessoas estava a dormir e até as sentinelas haviam de circular ensonadas.
Os cavaleiros ouviram-no com a máxima atenção, aprovaram o plano, mas pediram-lhe que não participasse no ataque pois receavam que lhe acontecesse alguma coisa. D.Afonso Henriques respondeu:
“Eu estarei convosco e serei o primeiro. Ninguém poderá separar-me da vossa companhia quer na vida quer na morte. E se eu tiver que morrer este ano sem esta cidade estar conquistada, peço a Deus que não me deixe sair vivo deste combate!”
Para sossegar os ânimos lembrou que em Coimbra os monges de Santa Cruz rezavam pela vitória. E todos consideraram sinal de protecção divina o facto de terem visto nessa noite uma grande estrela cadente riscar o céu e cair para as bandas do mar.
Depois de tudo preparado, puseram-se em marcha conduzidos por Mem Ramires.
De início sofreram alguns percalços. A primeira escada partiu-se e despedaçou-se com estrondo. Foi preciso improvisar uma solução rápida e acelerar o processo. Mem Ramires ordenou a um rapaz que lhe subisse aos ombros e atasse outra escada na muralha. Daí a pouco já havia 3 cristãos lá em cima, que se apressaram a erguer a bandeira.
As sentinelas mouras estremunhadas aproximaram-se e perguntaram: “Manhu?” ou seja, “Quem sois?”
Ninguém respondeu e eles perceberam então o que estava a acontecer. Horrorizados gritaram: “Annachara! Annachara! Annachara!” ou seja “ Cilada de Cristãos!”
Mas já vários outros tinham subido à muralha, enquanto o resto do exército rebentava a porta com machados e pedras.
O que D.Afonso Henriques previra aconteceu. Poucas horas depois a cidade de Santarém fazia parte do reino de Portugal.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário